The Fall (2006)

O cinema é cheio de pequenas maravilhas, filmes que passam despercebidos por vários motivos, e a descoberta (ou indicação, na feliz hipótese de alguém especial lembrar de você) de alguma dessas obras, faz um bem danado à alma. Isso aconteceu comigo com The Fall (2006). Dirigido por Tarsem Singh, que ficou famoso por The Cell (2000), The Fall é ambientado em 1915 e relata a construção de uma relação extremamente afetiva entre Alexandria (Catinca Untaru), uma menina de quatro anos, e Roy Walker (Lee Pace), um dublê de cinema. Ambos estão internados no mesmo hospital, ela com um braço quebrado, ele se recuperando de um acidente. Alexandria é quem inicialmente se aproxima, a contragosto de Roy que, com o tempo, cede, e começa a narrar a história fantástica de cinco heróis que se unem contra a tirania de um governador de algum lugar da Índia.

 

A intenção de Roy por trás dessa aproximação com Alexandria, é que ela lhe consiga comprimidos de morfina para que ele possa se suicidar. Roy utiliza a história como um dispositivo de controle: conta pequenos fragmentos conforme Alexandria lhe faz pequenos favores, cada vez mais próxima de lhe conseguir os comprimidos.

Apesar da trágica intenção de Roy, os dois se tornam bastante próximos, desenvolvendo uma relação quase fraternal. Alexandria age sem questionar, motivada pela inocência infantil que lhe cabe em sua tenra idade, e pelo apego que desenvolvera por Roy. Essa relação representa um conflito extremamente comum e, mesmo assim, poucas vezes retratado de forma tão convincente no cinema: o choque entre a ingenuidade e a degeneração da vida adulta.

 

O filme foi gravado sem auxílio de computadores, todos os cenários existem, e todas as cenas (como uma belíssima de um elefante nadando com pessoas em suas costas) foram capturadas com Tarsem. A ideia era construção de uma narrativa fantástica, como cabe a uma história de heróis, amparada pelos cenários extraordinários (e, mesmo assim, reais) e um figurino surrealmente bonito (obra da Eiko Ishioka).

 

Há um grande simbolismo por trás da Queda: há a real (para Alexandria, que quebrou o braço, e para Roy, que despenca de uma ponte), mas também há a queda gnóstica, simbólica, que na lógica judaico-cristão representa uma passagem da inocência para o pecado. O que é interessante aqui, é que, embora haja a referida Queda, há também a presença de Alexandria enquanto uma alegoria da Sophia platônica, uma parte feminina de Deus, que tenta salvar Roy de sua queda.

A grandiosidade desse filme reside justamente no fato de ser uma história tão inocente e ao mesmo tempo tratar de temas tão densos. É o tipo de obra que por trás de sua singela superfício, carrega um poder de impacto tão grande sobre quem a consome, que pode causar importantes rupturas na forma como agimos.

 

[Direção: Tarsem Singh. Roteiro: Tarsem Singh, Dan Gilroy, Nico Soultanakis. Trilha Sonora: Krishna Levy. Edição: Robert Duffy, Spot Welders. Figurino: Eiko Ishioka.]

[AQUI]

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