Pina (2011)

Em 2009 meus pais me mandaram para Porto Alegre para realizar minha primeira visita a uma Bienal do Mercosul. Naquela época, na passagem dos meus quinze para dezesseis anos de idade, eu queria me vender como o adolescente rocker que, como descobri só mais tarde, apenas a vida adulta nos permite ser. Embora eu tivesse tido aulas de história da arte desde pequeno, e fosse fascinado pelas mais singelas demonstrações de expressão artística, a visita a uma Bienal era algo para se manter em segredo da maior parte de meus amigos. Pois, visitei as instalações do evento e fiquei profundamente impressionado pela magnitude de algumas obras, mas a que mais me tocou foi um vídeo. De autoria de Jerôme Bel, ele apresenta Veronique Doisneau, sujet do ballet da Ópera de Paris. Nesse vídeo de pouco mais de meia hora, Doisneau fala de sua trajetória e de sua aposentadoria oito dias após sua última apresentação, que seria realizada naquele mesmo dia. O encontro com aquela obra representou um marco em minha vida, e ainda hoje não é fácil explicar a profundidade de seu impacto sobre mim. Mas aquele momento abriu meus olhos para o ballet e, mais tarde, para a dança moderna, e esse movimento me levou até a obra da coreógrafa alemã Pina Bausch. Mesmo assim, sempre havia ignorado a existência de Pina (2011), o belíssimo documentário de Wim Wenders sobre a coreógrafa, e há apenas pouco tempo ele me foi indicado por alguém cujas indicações, pra mim, são sempre certeiras.

A beleza e a delicadeza desse filme são extremamente comoventes. Eu acredito, com toda sinceridade, que poucas pessoas conseguiriam representar a sutileza, a força e a beleza da obra de Pina Bausch, e, mesmo assim, nenhuma como Wim Wenders o fez. O olhar cuidadoso, emotivo e penetrante de Wenders, o faz criador de obras sensíveis e profundas, como Asas do Desejo (1987) e O Sal da Terra (2014), mas Pina surge como uma espécie de magnum opus dessa capacidade de olhar.

 

Muito mais do que um documentário que apresenta uma cronologia, o filme mostra a essência da obra de Pina através de uma espécie de cosmologia dos sentidos através da dança. Mostra seus pupilos, dançarinos do Tanztheatre Wuppertal, interpretando quatro das criações mais importantes da coreógrafa (Le sacre du printemps, Café Muller, Kontakthof e Vollmond) alternadas com relatos pessoais e extremamente emotivos sobre Pina. A produção do filme iniciou em 2008, mas fora interrompida em 2009, com a repentina morte de Pina. Os dançarinos do Tanztheatre Wuppertal, porém, convenceram Wenders a dar continuidade às filmagens. É um filme em que tudo importa, cada elemento: as paletas de cores, as locações (o próprio teatro e os arredores de Wuppertal), os movimentos, os sons. Não é uma cronologia, é verdade, mas mostra muito mais sobre Pina do que qualquer linha do tempo o faria, tudo ali remete a ela, a seu espírito e a sua personalidade. Pina é, talvez, seu testamento artístico, sua assinatura em ferro quente sobre a carne da dança moderna.

 

 

[Direção: Wim Wenders. Produção: Wim Wenders, Gian-Piero Ringel. Trilha sonora: Thoma Henreich.]

[AQUI]

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